Bitcoin está criando cidades invisíveis onde a energia é desperdiçada

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Um exemplo acontece em El Salvador, onde a proposta da 'Bitcoin City' envolve transformar um vulcão em fonte de energia geotérmica.
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Por dois séculos, as indústrias seguiram um padrão previsível: instalavam-se perto de portos e grandes centros urbanos, em busca de mão de obra barata e boa logística.

Agora, o Bitcoin está virando esse jogo.

Mineradoras não buscam mais trabalhadores ou mercados consumidores — elas querem energia desperdiçada.

Basta uma conexão de fibra, uma pilha de ASICs e um galpão no meio do nada para que uma operação bilionária comece a minerar blocos sem parar.

A produção é 100% digital e não depende de caminhões, contêineres ou navios.

Com isso, locais isolados, onde nem fábricas tradicionais se arriscariam, estão se tornando pontos quentes de atividade econômica.

Além disso, a velocidade com que essas operações se movem surpreende.

Energia curta + Bitcoin = parceria perfeita

No Texas, por exemplo, o excesso de geração solar e eólica durante o meio do dia faz os preços caírem abaixo de zero.

Geradores chegam a pagar para que alguém use a eletricidade, já que desligar turbinas sai ainda mais caro.

É nesse cenário que mineradoras como a Riot encontram sua vantagem.

Só em 2023, a empresa faturou US$ 71 milhões em créditos de energia por interromper suas atividades durante horários de pico.

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Na prática, ganhou mais para desligar do que mineraria com as máquinas ligadas.

E a tendência só cresce: nos três primeiros trimestres de 2025, a Riot já acumulou mais de US$ 46 milhões nesses créditos.

Empresas como a Soluna também estão construindo data centers modulares ao lado de fazendas solares e eólicas, absorvendo a energia que a rede elétrica não consegue aproveitar.

Essa energia ‘perdida’ se torna, assim, uma espécie de subsídio oculto para operações de mineração.

Bitcoin se move mais rápido que fábricas tradicionais

Ao contrário de indústrias pesadas, que precisam de infraestrutura robusta e logística, mineradoras de Bitcoin são incrivelmente móveis.

Quando a China reprimiu a atividade em 2021, grandes fazendas migraram para os Estados Unidos e Cazaquistão em questão de meses.

A participação dos EUA na taxa global de hash subiu de um dígito para 38% até o início de 2022.

Enquanto isso, províncias chinesas com excesso de energia viram um discreto retorno das operações.

ASICs — os computadores especializados em mineração — são do tamanho de contêineres, têm vida útil curta e produzem o mesmo ativo virtual em qualquer lugar.

Ou seja, basta um novo incentivo fiscal ou contrato de energia barato para que uma fazenda inteira mude de endereço.

Texas, Butão e El Salvador viram hotspots do Bitcoin

Nos Estados Unidos, os mineradores estão se concentrando em regiões como Texas, Sudeste e Montanhas Rochosas.

Essas áreas oferecem energia renovável em excesso, redes de transmissão limitadas e políticas locais amigáveis.

No Texas, o operador da rede elétrica (ERCOT) classifica grandes consumidores como ‘recursos de carga controlável’.

Isso significa que eles podem ser desligados em segundos para estabilizar a frequência da rede.

Empresas como a Lancium vendem essa capacidade como um serviço: desligam suas máquinas quando os preços sobem e são pagas por isso.

Já a Riot detalha seus ganhos em relatórios mensais, quase como se fosse uma prestadora de serviços para a rede elétrica.

Os mineradores de Bitcoin se concentraram no Texas, no Sudeste e no Oeste Montanhoso, regiões onde a redução da produção de energia renovável cria excedente de energia a preços baixos.

Mineração vira moeda diplomática

Fora dos EUA, o Butão está construindo ao menos 100 MW de capacidade de mineração com energia hidrelétrica.

O projeto é parte de uma iniciativa verde de US$ 500 milhões em parceria com a Bitdeer.

O mais curioso? Lucros com cripto já foram usados para pagar salários do governo.

No país asiático, mineração virou estratégia de política nacional.

O mesmo acontece em El Salvador, onde a proposta da ‘Bitcoin City’ envolve transformar um vulcão em fonte de energia geotérmica.

Ali, a cidade seria construída ao redor de uma usina, com incentivos fiscais e financiamento via títulos atrelados ao BTC.

Enquanto isso, o estado americano de Kentucky isenta mineradoras do imposto sobre eletricidade, mesmo sabendo que elas criam poucos empregos.

Revolução silenciosa nos mapas da indústria

Durante toda a era industrial, as cidades cresceram ao redor de portos, ferrovias e centros comerciais.

Agora, Bitcoin está reorganizando esse mapa.

A nova lógica é: onde houver watts sobrando, fibra óptica e poucos entraves regulatórios, haverá atividade econômica.

O produto final não precisa ser transportado — ele nasce digital. A mão de obra é mínima, e o impacto se mede em megawatts, não em empregos.

Por isso, surgem hubs improváveis: depósitos em regiões frias, longe de tudo, mas com energia de sobra.

E o que vem depois do Bitcoin?

A mineração já inspirou outros setores.

A IA, por exemplo, também começa a buscar locais com energia barata para seus data centers de treinamento.

No entanto, há limites: aplicações de inteligência artificial em tempo real exigem baixa latência, o que ainda exige proximidade com grandes centros.

Mesmo assim, tarefas pesadas, como o treinamento de modelos e inferência em lote, já migram para locais remotos com energia abundante.

China, por exemplo, já testa data centers subaquáticos movidos a energia eólica marítima.

Bitcoin revela onde o mundo desperdiça energia

Esse novo mapa mostra onde estão os megawatts desperdiçados — e até onde os governos vão para monetizá-los.

O Butão monetiza sua energia hidrelétrica com mineração. O Texas paga para que mineradoras desliguem durante ondas de calor.

O Kentucky concede isenção de impostos. A China, mesmo após repressão, vê a atividade ressurgir em províncias com energia excedente.

A era das cidades movidas a energia, não a pessoas

Por fim, se no passado as cidades nasciam em torno de portos, agora elas surgem em torno de usinas, cabos de fibra e subestações.

Bitcoin é apenas o primeiro a expor esse novo mapa.

Outros setores virão, e os “watts à beira” serão os novos guias da geopolítica digital.

As máquinas chegaram primeiro.

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